Quinta-feira, Novembro 5
Quarta-feira, Novembro 4
O mais curto poema

Adam
Had’em
Nota: Autor desconhecido e completamente não canónico.
Terça-feira, Novembro 3
Comentário ao post anterior "Pseudo-editoras"
Pseudo-editoras
Todos nós sabemos que a Internet, para além das muitas vantagens, traz consigo algumas desvantagens, como a de potenciar crimes e burlas. Na Internet o que não falta são blogues, dos mais diversos assuntos e gostos, mas todos com uma coisa em comum: são escritos por pessoas, as quais podem ser enganadas. Existe um grande número de blogues pessoais que traduzem sobretudo o gosto pela escrita, desde a poesia, os aforismos, pensamentos, contos, etc. A maior parte dos autores dos blogues nesta área terá no seu íntimo, nem que seja secretamente, o desejo de um dia vir a ser escritor, editado e reconhecido. Independentemente de se ter noção da qualidade daquilo que se escreve, quem é que resiste à tentação de responder a um e-mail que elogia a nossa escrita e nos pergunta: «Por acaso nunca pensou em editar em livro o seu magnífico blogue?», ou «Quer editar o seu livro?», «Quer editar os seus poemas?», «Quer editar os seus contos ou romance?»
O que aqui denuncio não sei se pode ser considerado crime, mas é no mínimo desonesto. Não posso revelar os nomes das pseudo-editoras, porque apenas disponho do testemunho de pessoas que vêm à livraria perguntar pelo seu livro. A resposta é invariavelmente a mesma: nunca recebemos esse livro nem sequer temos conhecimento da sua existência. Desiludidas por raramente encontrarem o seu livro numa livraria, estas pessoas acabam por desabafar e contar-nos como se sentem enganadas. O truque consiste no seguinte: as pseudo-editoras, aproveitando-se do desejo, natural, de quem gosta de escrever e tem um blogue, envia um e-mail elogiando a escrita do autor e propondo-se a ajudá-lo a editar os seus esplêndidos textos. Em troca, com o argumento de que ele ainda é um ilustre desconhecido, pedem-lhe uma comparticipação nos custos da edição e distribuição. Os valores em causa não são grandes, na ordem dos 200 ou 250 euros. Se tiver em conta que poderá ver, no futuro, o seu livro editado e distribuído por todo o país, estes valores parecem ainda mais insignificantes. Não resistindo ao apelo, muito boa gente entra no negócio e só mais tarde se apercebe de que pagou esse valor por 20 exemplares, a que necessariamente tem direito como autor. Compra-se um serviço que oferece livros impressos digitalmente, com miseráveis revisões, péssimo papel e capas horrorosas que valem bastante menos do que o dinheiro que o autor adianta. Para além disto, o contrato que estas pessoas assinam não lhes concede direitos de autor, a não ser que exista no futuro uma segunda edição, coisa que nunca sucede, pois é raro as livrarias receberem sequer estes livros. Não sabemos se de facto se editam mais exemplares e se é feita uma posterior distribuição da mesma pelo mercado. Os seus autores não têm nenhum tipo de controlo neste tipo de edição, na maior parte das vezes feito totalmente por e-mail, não havendo nunca um contacto directo e presencial com os pseudo-editores. Fica aqui o alerta.
Jaime Bulhosa
Segunda-feira, Novembro 2
Criação de traças
Bartleby, o Escrivão

Sexta-feira, Outubro 30
O meu cérebro

– Pai, afinal ler não traz assim tantas vantagens...
- Como assim? Não te deu prazer ler?
- Sim, mas há muitas outras coisas que me dão prazer.
E, antes de conseguir explicar-lhe os resultados maravilhosos no teste de Português, o meu pai adiantou:
- Tens razão e essas coisas também são importantes. Vou tentar explicar-te de uma forma simples como é que o nosso cérebro funciona.
É preciso não esquecer que naquele tempo não havia computadores e, por isso, não era possível fazer essa comparação, como tantas vezes acontece hoje em dia.
- Imagina que o teu cérebro é um funil.
Dei uma gargalhada.
– Um funil, pai!?...
- Sim, um funil de cozinha. Esse funil tem de estar constantemente a ser alimentado com um líquido, que convém que seja o adequado às necessidades. Estás a conseguir visualizar?
Tentei fazer um ar sério e respondi:
– Sim, estou a imaginar. (E ria interiormente.)
- Já reparaste, com certeza, que quando se verte muito devagar um líquido num funil, esse líquido desaparece muito rapidamente?
- Sim.
- É isso que tens feito até agora, tens deitado pouco líquido no teu funil.
Este comentário provocou-me outra gargalhada.
O meu pai mantinha o semblante compenetrado.
- Por outro lado, quando se verte o líquido muito rapidamente, o funil enche depressa.
- Certo, pai!
- Depois, podemos até parar por um pouco e a sensação que temos a seguir é de que ele se esvazia muito devagar.
- Isso até eu sei! Já fiz essa experiência na escola.
- Agora imagina que esse líquido é a informação, o conhecimento adquirido através da leitura, da experiência e do estudo.
- Estou a perceber onde queres chegar… - Disse eu com uma expressão facial de algum desagrado.
- Óptimo… Então entendes que não tens outra alternativa a não ser estar constantemente a alimentá-lo, para que ele esteja sempre cheio. Doutra forma, ele ficará rapidamente vazio e o conhecimento que terás disponível para usares em teu benefício é simplesmente aquele que restou nas paredes húmidas do funil.
Nunca cheguei a mostrar-lhe o teste e, na altura, achei que o meu pai estava a brincar. A verdade é que resultou. Desde aí passei a dar mais importância à leitura e a ter melhores notas. Se ele ainda estivesse vivo, dir-lhe-ia que ainda hoje, depois de tantos anos, continuam a existir pessoas em Portugal que nunca leram um livro na vida, o que o deixaria incrédulo.
Não sei se de propósito, talvez para não me desincentivar, mas o meu pai não me contou toda a história. Faltou um pormenor «insignificante» acerca do processo de aprendizagem: o universo possível de conhecimento vai aumentando conforme se vai tendo noção da dimensão extrema da realidade. Esse universo é imenso e necessita de um enorme «funil» para ser alimentado, ainda que, no meu caso, esteja sempre irritantemente a ser despejado.
Quinta-feira, Outubro 29
Where the wild things are

Apesar de a Quetzal ir editar o romance de Dave Eggars (co-autor do guião do filme) escrito a partir da história de Maurice Sendak, tenho muita pena que nenhuma editora portuguesa achasse interessante traduzir e editar o livro original de Maurice Sendak.
Quarta-feira, Outubro 28
Heresia

- Posso fazer uma pergunta?
- Sim, com certeza.
- Já leu esse livro do herético que horrorizou os católicos e de que tanto falam por aí?
O facto de o cliente ter usado a palavra herético deixou-me desde logo preocupado. Meio a medo, respondi:
- Sim, já li.
- Então, não acha que o devia retirar da livraria e pô-lo à venda no sítio certo?
Depois desta última pergunta, tive a certeza de que devia ser prudente, não dar a minha opinião e responder com outra pergunta:
- Posso perguntar-lhe porque é que acha isso?
- Porque você está a vendê-lo no sítio errado!
Fiquei ainda mais confuso.
- Como assim, a vendê-lo no sítio errado?
- Não há aqui uma igreja ao pé de si?
Começava a ficar preocupado com a possibilidade de ter à minha frente um fundamentalista religioso, deveras furioso e disposto a partir-me a montra.
- Sim, temos a igreja de NOSSA SENHORA DE FÁTIMA. - Disse eu, em maiúsculas para demonstrar que sabia perfeitamente onde se podia ir rezar e apaziguar a fúria do senhor.
- Pois fique sabendo que é lá que saem que nem hóstias.
O livreiro é um extraordinário leitor
O ritmo a que chegam títulos novos, nesta época do ano, a uma livraria, faz com que um livreiro seja um extraordinário leitor de facturas, fichas técnicas, isbn, sinopses e colófons.Invisível

Editor: Edições Asa
Tradução: José Vieira de Lima
Terça-feira, Outubro 27
A primeira causa
Convidei um russo meu amigo, de seu nome Arkady Averchenko, para almoçar comigo. Averchenko é um homem de riso claro e gosta de contar histórias que não trazem a marca incisiva da revolta, como é comum nos compatriotas soviéticos seus contemporâneos. Não perde tempo com exórdios nem preâmbulos e vai direito a um conto que é passado muito antes da queda do Muro.-Podes dar-me os parabéns – disse-me um jovem meu amigo, com um sorriso feliz a inundar-lhe o semblante rechonchudo – acabo de obter o diploma de advogado.
- Deveras?
- Palavra de honra!
Ficou sério.
-Não se trata de um gracejo? – perguntei-lhe.
A seriedade dele acentuou-se.
-Meu caro – respondeu num tom doutoral - os homens que, como eu, formam a guarda de honra da lei não gracejam. Os defensores do oprimido, os arautos das grandes concepções jurídicas os sacerdotes do templo da justiça, não têm o direito de gracejar.
E após mirar-me uns instantes em silêncio, sem dúvida para ver o efeito em mim produzido por tão graves palavras, acrescentou:
- Necessitas dos serviços de um advogado?
Ia a dizer que não; mas, de súbito, preguei uma palmada na testa.
- Olha, creio que sim! Nós os directores dos jornais, somos com frequência alvo de perseguições… julgar-me-ão, na próxima semana, por causa de uma notícia sobre a violência cometida por um oficial da Polícia.
- Que fez o oficial da Polícia?
Deu com a espada num judeu.
- Não compreendo; se foi o oficial quem agrediu o judeu, por que é que és tu quem vai ser julgado?
Porque é proibido publicar notícias desse género, que segundo parece, rebaixam o prestígio das autoridades. Pelo visto, a espadeirada foi confidencial e não se destinava, de forma nenhuma, à publicidade.
- Bem. Encarrego-me do assunto, embora seja difícil, muito difícil.
-Não contesto. Vais já dizer-me que honorários…
- Os que cobram os outros advogados.
-Agradecer-te-ei que sejas mais explicito.
- Os dez por cento, homem!
- De modo que se me condenarem em três meses de prisão, estarás nove dias metido no calabouço em vez da minha pessoa?... Estou disposto, nesse caso, a atribuir-te cinquenta por cento.
O novo jurisconsulto perguntou, um pouco desconcertado:
- Não reclamarás uma indemnização pecuniária?
- A quem? Ao tribunal? Ao oficial da Polícia? Ao judeu, que, por se ter deixado agredir, foi até certo ponto, o causador do meu processo?
O jovem advogado acabou por se desconcertar de todo:
- Quem me pagará então? Deves compreender que não vou trabalhar de graça. O diploma custou-me os olhos da cara.
- Trata-se de um processo político…
- Nos processos políticos o advogado de defesa não cobra nada?
- Quando é um advogado que se preza, não.
- Ah, sim? Pois bem, não cobrarei um rublo sequer.
Sacrificar-me-ei nas aras da Liberdade!
-Obrigado! Venham de lá esses ossos!
- Desculpe, já viu a lista?
- Perdão, estava distraído. Sim, queria o prato do dia e uma garrafa de água, por favor.
Aproveito aqui a interrupção da história para dizer que Arkady Averchenko não é propriamente meu amigo. Mas acontece que eu gosto de almoçar acompanhado e escolhi-o a ele, quase aleatoriamente, para me fazer companhia durante a refeição. Contudo, as pessoas com quem eu almoço têm para vocês muito pouco interesse quando comparadas com aquilo que Arkady Averchenko tem para contar. Vou procurar não interrompê-lo mais e deixá-lo retomar a narração.
O mancebo expôs-me o seu sistema de defesa.
-Declararás – disse-me ele – que a notícia não foi publicada.
- O quê?! Pois se o número em que saiu a notícia se encontra em poder dos juízes!
- Ah, sim? Que imprudência, a tua!... Então, o melhor será declares que o periódico não é teu.
- Mas se o meu nome figura por baixo do título e à direita da palavra «director»!
- Declara que não sabias isso.
- Não, não pode ser! Ninguém ignora em Petersburgo que sou eu o director do jornal.
- Mas o tribunal não irá convocar, para prestar declarações, Petersburgo inteiro… Acresce que podes dizer que a notícia foi publicada na tua ausência.
- Não me serviria de nada a mentira; o director do periódico é responsável por tudo quanto nele se publica.
- Ah, sim?... Com mil diabos!... E por que publicaste tu essa estúpida notícia?
- Homem!...
-Que necessidade tinhas tu de imiscuir-te num assunto puramente particular entre um oficial da Polícia e um judeu? Vocês, jornalistas, metem o nariz em tudo!
Baixei os olhos, confuso, arrependido da minha leviandade, Ao ver esboçado no meu semblante o remorso, o jovem apressou-se a mudar de tom.
- Enfim, não sou chamado a acusar-te; isso farão os juízes. Sou o teu defensor. E sairás absolvido; que dúvida há?
Ao entrar na sala do tribunal o meu defensor pôs-se tão pálido que, amparando-o, tive de dizer-lhe ao ouvido, receoso de um desmaio:
- Coragem, amigo!
- É assombroso! – murmurou ele, tentando dissimular a perturbação. – A sala está quase vazia. E trata-se de um sensacional processo político!
Efectivamente, apenas se viam nas bancadas destinadas ao público dois estudantes que, sem dúvida, haviam lido na imprensa a notícia do meu julgamento e ali acudiam para me verem condenar. Ou – quem sabe lá? – talvez estivessem resolvidos a executar algum acto heróico para me salvarem.
A expressão deles era extremamente enérgica e lia-se-lhes nos olhos o ódio feroz ao nosso regime político e um amor sem limites à liberdade. Talvez o seu propósito fosse arrebatarem-me da sala, se o veredicto fosse condenatório, e fugirem comigo para as campinas mexicanas, por eles destinadas a teatro de terríveis façanhas minhas.
Ouvi, mal entendendo, a leitura do libelo. A minha atenção absorvia-se quase inteiramente no meu pobre advogado, naquele momento semelhante ao protagonista da obra de Vítor Hugo, «O Último dia de um Condenado à morte».
- Coragem! – repeti-lhe.
- Tem a palavra o advogado de defesa – proferiu com solene entoação o presidente, ao terminar a leitura do libelo. O meu advogado, como se aquilo não lhe interessasse nem pouco nem muito, continuou a folhear na sua papelada.
- O advogado de defesa tem a palavra.
- Começa o discurso! – soprei eu, pregando ao mesmo tempo um muro na cadeira do jovem causídico.
- Quê! Ah, sim! É para já!
E levantou-se. Cambaleava. Este mancebo, pensei, vai despenhar-se em cima de mim.
- Rogo aos senhores juízes – balbuciou – que desviem a sua vista do processo.
-Para quê? – perguntou, espantado, o presidente.
- Para citar testemunhas.
- Com que objectivo?
- Para provar que, quando se publicou a notícia constante dos autos, o condenado…
- O acusado – rectificou o presidente. – ainda não o condenámos.
- Foi um «lapsus», senhor presidente. Para demonstrar que, quando se publicou a notícia dos autos, o condenado, digo o acusado, estava fora.
- Não importa. O director é responsável por tudo quanto sai no periódico.
- Ah! Sim, já me tinha esquecido! Não abstante…
Agarrei nervosamente, pela fralda, a toga do advogado e puxei com todas as minhas forças.
- Não insistas!
O advogado voltou-se para mim. A sua palidez aumentava. As suas mão trémulas, apoiavam-se na mesa.
- Que não insista? Bom… Senhores juízes, senhores jurados…
Novo estenderete.
- Jurados, não. Aqui não há jurados!
- Não importa… devia havê-los, em representação da opinião pública…
Soou a campainha presidencial.
- Peço ao advogado de defesa que se abstenha de manifestações políticas.
- Bem, bem, senhor presidente… O calor da improvisação…
Houve largas pausas. O orador já não estava pálido; estava lívido. De súbito com a brusca resolução do jogador desesperado que arrisca numa carta todo o dinheiro que lhe resta, gritou:
- Senhores juízes, tenho a honra de declarar que no suposto delito do meu constituinte concorrem circunstâncias excepcionais.
Expectativa geral. «Que excepcionais circunstâncias serão?», pensei.
- Exponha-as V. S.ª…
- Vou já fazê-lo, senhor presidente.
- Já terminou? Deseja uma sobremesa e um café, como de costume?
- Sim, bolo de bolacha e o café, se fizer favor.
Faço aqui mais um interregno, para deixar que o advogado, eu próprio e você, leitor, respiremos. É que por esta altura já devem estar tão ansiosos quanto eu para saber como é que esta história vai terminar. Não é à toa que chamam ao meu amigo Arkady Averchenko o «Mark Twain eslavo». Passemos então a palavra ao advogado de defesa.
- Senhores juízes: o meu constituinte está inocente. E, conheço-o a fundo, incapaz de delinquir. O seu moral é elevadíssimo.
O jovem advogado emborcou à pressa um copo de água.
- Palavra de honra, senhores juízes! O meu constituinte, testemunha ocular da agressão do oficial da Polícia…
- Eu?! – prostestei em voz baixa. – Não prossigas por esse caminho!
- Não? Bem… testemunha ocular da agressão do oficial não digo que fosse; mas, senhores juízes, a vida dos nossos jornalistas é um verdadeiro calvário de privações e misérias. Desabam sobre eles multas, confiscações, denúncias… E, com grande frequência, carecem, ah! Senhores! Até de um pedaço de pão para meter na boca! O meu constituinte, jornalista devotado, jornalista daqueles que põem todo o seu entusiasmo no exercício da profissão, achando-se, senhores, numa situação económica desesperada, recebe a visita de um judeu que lhe conta que um oficial da Polícia acaba de o agredir e lhe oferece soma de dinheiro para ele publicar a notícia no jornal. A tentação, senhores juízes era demasiadamente forte, e o meu constituinte…
- Senhor advogado! – interrompeu, cheio de assombro, o presidente.
- Deixe-me V. S.ª continuar! – gritou o meu defensor, num inconcebível arranque de audácia. – O meu constituinte escreveu a notícia para ganhar o pão. Pode isto ser um delito? Declaro, com a mão sobre o coração, que não é. Turgueniev, Tolstoi, Dostoievski escrevem também para ganhar o pão e ninguém os processa. A justiça, senhores juízes deve ser igual para todos. Exijo que Tolstoi, Turguniev, Dostoieveski sejam trazidos perante este tribunal e julgados juntamente com o meu constituinte.
Tossiu, bebeu outro copo de água e, levando a mão ao lado esquerdo do peito, prosseguiu:
- Senhores juízes: juro-lhes que o meu constituinte tem consciência tão límpida como a neve que branqueia os altos cumes dos Alpes. É, simplesmente, uma vítima da carestia de vida, da miséria, da fome. O meu constituinte, senhores juízes, é, acima de tudo, uma grande esperança da nossa literatura, e se o condenares… mas não, não o condenareis, não vos atrevereis a condená-lo… Quarenta séculos vos contemplam!
- Tem a palavra o acusado – disse o presidente, por cuja face coberta de cãs perpassou um leve e discreto sorriso.
- A conta, por favor.
- Com certeza, só um momento.
O tempo que eu tinha disponível para almoçar está a terminar, mas se me perguntarem agora o que acabei de comer não sou capaz de dizer. É o que acontece quando estamos completamente absorvidos pela conversa de alguém que a cada frase nos surpreende com a sua eloquência. Tudo à nossa volta deixa de existir. Neste caso, não se tratou exactamente de uma conversa, mas sim da leitura de um livro. É bem verdade quando se diz que «nunca se está só quando se lê um livro». Poderá até dizer-se que se está mal acompanhado, mas nunca só. Não desesperem… Já darei a voz a Averchenko, mas peço-vos um pouco mais de paciência. Este conto faz parte de um livro que inclui outros cinco contos extraordinários de Arkady Averchenko e cujo título é Maldita Matemática!. Posso acrescentar que pertence à colecção «Mosaico» de uma editora que já não existe há muito tempo, chamada Edição de Fomento. Aqui, na Pó dos livros, e para quem conhece a loja, costumamos ter alguns na primeira mesa, onde se encontram lado a lado com outras relíquias. Pouco sei da vida e obra de Averchenko – nasceu em 1879 e morreu em 1923. Foi considerado por muitos críticos como o rei do humor russo. Voltemos ao conto.
Ergui-me, pronunciando o seguinte discurso:
- Senhores juízes: Permitam-me algumas palavras em defesa do meu advogado. Acaba de receber o seu diploma. Que sabe ele da vida? Que lhe ensinaram na Universidade? Umas tantas habilidades jurídicas e quatro ou cinco frases retumbantes. Do restante ignora tudo. Com tão científica bagagem, que cabe toda dentro da ponta de um lenço, começa hoje a viver. Não o julguem severamente, senhores juízes! Tenham piedade do pobre moço e não considerem um crime o que só é ignorância e candura. Além de juízes sois cristãos! Invoco os vossos sentimentos cristãos e rogo-lhes que lhe perdoem.
«Tem a vida adiante dele e corrigir-se-á com o tempo. Estou certo, senhores juízes, de que, obedecendo ao impulso dos vossos nobres corações, absolvereis o meu advogado, em nome da verdadeira Justiça, em nome do verdadeiro Direito». O meu discurso impressionou muito os juízes. O meu advogado levou várias vezes o lenço aos olhos. Quando os juízes acabaram de deliberar ocuparam de novo os seus assentos, e o presidente declarou:
- O acusado foi absolvido.
Pouco amigo das coisas ambíguas, apressei-me a perguntar:
- Qual acusado?
- Os dois. O senhor e o seu defensor.
O meu advogado de defesa foi felicitadíssimo. Os dois estudantes pareciam um pouco desapontados; teriam preferido, sem dúvida, que eu fosse vítima das injustiças sociais. Saímos juntos, eu e o meu advogado, do tribunal, e dirigimo-nos logo ao telégrafo, onde o jovem causídico expediu um telegrama que dizia assim:
Querida mamã: acabo de iniciar a minha carreira de advogado defendendo um réu político. Absolveram-me – NICOLAS.
Sexta-feira, Outubro 23
Pobre poeta

Entra um homem de meia-idade com um semblante que nós, livreiros, de imediato identificamos como o estereótipo do Poeta.
- Bom-dia.
- Bom-dia. Em que posso ser-lhe útil?
- Eu sou autor de um livro e aqui há uns meses deixei uns exemplares em consignação nesta livraria. Gostaria de saber quantos exemplares se venderam?
- Como se chama?
- João Trindade
- Não, referia-me ao título do livro.
- Sentimento Inescrutável.
- Deixe-me adivinhar: é poesia?
- Sim, é uma dedicatória ao amor.
O livreiro pesquisa no computador.
- Ora aqui está! Infelizmente não se vendeu nenhum e mantêm-se os seis exemplares que deixou.
- Deve haver algum equívoco! Eu apenas deixei cinco exemplares!…
- Vamos confirmar.
O livreiro, voltando-se para o colega, pergunta:
- António! Vê aí por favor, na secção de poesia, quantos exemplares existem do livro Sentimento Inescrutável, de João Trindade?
Passado uns segundos:
- Seis exemplares.
- Confirma-se.
O autor, incrédulo.
- Não pode ser! Eu tenho a certeza de que só deixei cinco exemplares.
- Desculpe, não leve a mal, mas provavelmente alguém veio aqui deixá-lo ou trocá-lo por outro, quem sabe?...
Do fundo da livraria o, António diz:
- Há um que tem uma dedicatória.
Ao mesmo tempo o livreiro e o poeta:
- E o que diz?
- Para a minha esposa com todo o amor, porque sem ela não teria sido possível escrever este livro (...).
Jaime Bulhosa
Novas Crónicas do RAP

Quinta-feira, Outubro 22
Literatura de Deus e do Diabo
Livreiro anónimo a partir das reflexões de Dom Louis-Bernard La Taste (1682-1754)
Quarta-feira, Outubro 21
Já li o livro do José Saramago

O que gosta de ler sr.dr.Isaltino?

Todos nós sem excepção (ou pelo menos quase todos, pronto…, ou pelo menos os mais curiosos, como eu), quando estamos apanhar seca numa sala de espera de consultório, somos incapazes de resistir a dar uma vista de olhos nas chamadas revistas de sociedade. Para dizer a verdade, ou melhor, para ser totalmente sincero, não resisto aos lead’s das primeiras páginas, como por exemplo: «Alexandra Lencastre está gorda que nem um…». Olhei para uma revista chamada, se não me engano, Flash e reparo que tinha uma entrevista com Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, já depois das eleições autárquicas. Evidentemente, só por isso abri a revista – o facto de poder encontrar lá dentro a Claúdia Vieira ou a Soraia Chaves não me dizia absolutamente nada. Li a entrevista com toda a atenção e, a páginas tantas, a jornalista da dita publicação resolve fazer uma pergunta de âmbito cultural, que fica sempre bem.
- Sr. Isaltino, o que gosta de ler?
- Gosto de ler, quando estou na casa de banho, os livros da Reader’s Digest.
70 anos da Segunda Grande Guerra

- Eu Fui o Capitão do Exodus, de Ike Aronowich, Sextante
- 1939 Contagem Decrescente Para Guerra, de Richard Overy, Livros D’Hoje
- O Tambor de Lata, de Günter Grass, Dom Quixote
- As Benevolentes, Jonatham Littell, Dom Quixote
- Testemunhas da Guerra, de Nicholas Stargardt, tinta-da-china
- The Storm of War, de Andrew Roberts, Allen Lane
- Those Who Marched Away, de Irene & Alan Taylor, Canongate
- Masters and Commanders, de Andrew Roberts, Penguin
-The Third Reich AT War, de Richar S.Evans, allen lane
- Entrevistas de Nuremberga, Leon Goldensohn, tinta-da-china
Terça-feira, Outubro 20
Vencedores das piores capas de livros de sempre
- Em 1.º lugar com 201 votos O Falo Perdido, de Eurico Cebolo, edição de autor.
- Em 2.º lugar com 194 votos A Religiosa, de Denis Diderot, edição Europa-América
- Em 3.º lugar com 148 votos Exercícios de Estilo, de Luiz Pacheco, edição Editorial Estampa.
Nota: Agradecemos a todos os nossos leitores a participação e divulgação desta iniciativa.
O Mar em Casablanca
O novo romance de Francisco José Viegas, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE, 2005, com a obra Longe de Manaus. O que une um cadáver encontrado nos bosques que rodeiam o belo Palace do Vidago e um homicídio no cenário deslumbrante do Douro? O que une ambos os crimes às recordações tumultuosas dos acontecimentos de Maio de 1977 em Angola? Jaime Ramos, o detective dos anteriores romances de Francisco José Viegas, regressa para uma nova investigação onde reencontra a sua própria biografia, as recordações do seu passado na guerra colonial - e uma personagem que o persegue como uma sombra, um português repartido por todos os continentes e cuja identidade se mistura com o da memória portuguesa do último século. História de uma melancolia e de uma perdição, O Mar em Casablanca retoma o modelo das histórias policiais para nos inquietar com uma das personagens mais emblemáticas do romance português de hoje.Páginas: 240
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04287-3
Colecção: MARCA D'ÁGUA
Segunda-feira, Outubro 19
Brainstorming de frases de incentivo à leitura
Criar uma boa frase publicitária não é uma tarefa fácil. Para que uma frase ou um slogan comunique com o público-alvo e atinja os efeitos desejados e não o contrário, como muitas vezes acontece, é necessário respeitar uma série de regras. Os publicitários alertam-nos para os perigos e dificuldades de aplicação dessas regras: «(...) elas são bem mais complexas do que à primeira vista podem parecer. A ideia que se tem de que, para resultar, basta uma frase conter um benefício-chave, ter um trocadilho ou ser de fácil memorização não é suficiente.» No entanto, apesar disso, as empresas, sobretudo as mais pequenas, caem facilmente na tentação de fazer estas coisas com a prata da casa. Numa empresa onde trabalhei, foi pedido a alguns funcionários, em jeito de brainstorming, que pensassem numa ou várias frases de incentivo à leitura, para depois algumas serem usadas em cartazes publicitários de livraria. As frases que se seguem são algumas das que resultaram desse brainstorming, tendo sido recusadas, por razões óbvias, pela gerência. Contudo, guardei-as por achá-las engraçadas e nonsense. Não resisto a publicá-las, agora devidamente organizadas por fonte de inspiração.
AS DOMÉSTICAS
«Se até a bruta da tua sogra lê...»
«Ou lês ou comes a sopa.»
AS DE ÍNDOLE SEXUAL
«Finalmente só! Eu e o meu livro.»
«À noite dói-lhe a cabeça?... Faça como ela, leia!»
«Tocas num livro, tocas num homem.»
AS DE SUPERIORIDADE INTELECTUAL
«Samos cada bêz menos anal-fabetos, ler acaba con nôs.»
«Os verdadeiros analfabetos são aqueles que não lêem.»
«Ler não evita a estupidez, mas disfarça-a muito.»
AS MISÓGINAS, HOMOFÓBICAS E MACHISTAS
«Não ler é coisa de gaja, deixa de ser larilas!»
«Uma mulher que não lê, não é uma mulher, é um homem.»
«Não pintes o teu cabelo loiro, lê!»
AS PSEUDO-FILOSÓFICAS
«Ler é um modo engenhoso de não pensar.»
«A leitura engrandece a alma e o corpo.»
AS POLÍTICAS OU JURÍDICAS
«Ler é um vício legal!»
«Em terra de cegos, quem lê é rei.»
«O povo que lê jamais será vencido.»
Jaime Bulhosa
Sexta-feira, Outubro 16
Os novos livreiros

- Por favor, podia dizer-me se a tradução de A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoy, é feita directamente da língua russa?
- É a 1.ª edição?
- Já leu? E gostou?
- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.
- O livro é para oferta, podia embrulhar-mo?
- Se a pessoa a quem eu vou oferecer o livro já tiver, posso trocar?
- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.
-Ah, não responde! Então, queria o livro de reclamações, por favor.
- Reeenheeec, reeenheeeec, … Por favor, introduza as moedas ou as notas.
Nota: Agora sem brincadeiras, até acho uma ideia engraçada.
Jaime Bulhosa
Entrevistas da Paris Review

Entre a entrevista a E.M. Foster, a primeira deste volume, e a entrevista a Jack Kerouac, a última, decorrem quinze anos. O tempo que corresponde a uma mudança social drástica que a literatura soube espelhar. E que estas peças também revelam por inteiro: do aprumo formal de Foster à conversa com anfetaminas em casa de Kerouac.
Sem a Paris Review, teríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges – para citar apenas três dos dez autores que estão neste livro – mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para a arte literária no século xx.
E.M. Foster
Graham Greene
William Faulkner
Trumam Capote
Ernest Hemingway
Lawrence Durrell
Boris Pasternak
Saul Bellow
Jorge Luis Borges
Jack Kerouac
Quinta-feira, Outubro 15
Entrada directa para o Top
- Sexo Portugal
- Beijo na Boca
- Rosa Cueca
- Vídeos Eróticos
- A Maçã de Eva
E o não menos conhecido Irmão Lúcia.
Obrigado
Segunda-feira, Outubro 12
Escolha as 3 piores capas de livros de sempre em Portugal
1.º Mau gosto,
2.º Pior grafismo,
3.º Incongruência com o tema
4.º Um tiro ao lado em relação ao público-alvo.
Após três meses e algumas dezenas de capas enviadas, a Pó dos Livros seleccionou as 10 que considerou piores. Propomos-lhe agora que nos ajude a eleger as três piores de sempre, votando no inquérito, criado para o efeito, no canto superior direito do nosso blogue.
Nota: Esta eleição, pela dificuldade de recolha de imagens, não representa, de todo, o universo possível de capas que poderiam ter ido a concurso. Por isso, para quem não se sente representado nesta votação e de alguma forma se sente lesado por considerar ter conseguido fazer muito pior, pedimos desde já as nossas desculpas.
Sábado, Outubro 10
Que saudades do tempo em que um livro não era um artigo

- É sim.
- Estou a ligar-vos porque tenho uma dúvida acerca do preço de um livro que acabei de receber.
- Qual o número de cliente?
- É o ****.
- Só um momento… Qual é número da factura?
- É o ****.
- Só um momento… Qual é o artigo?
- O título do livro é ****.
- Não! Diga-me antes o número do artigo?
-O Isbn do livro?
-Sim.
- É o ***.
- Só mais um momento… O artigo em causa é o último da factura?
- É sim.
- Diga-me então, por favor, o que é que se passa de errado com este artigo?
- Com o livro, quer você dizer?...
- Sim… com o artigo!
- Bem, passemos adiante… O que se passa é que acabo de receber um livro que está facturado com o preço de 4.75 euros, o que me parece uma impossibilidade, tendo em conta que é uma novidade, 1.ª edição e ainda para mais tratando-se de uma tradução.
Evidentemente do outro lado os termos: “novidade”, “1.ª edição” e “tradução” não têm qualquer significado.
- Não estou a perceber qual o problema com este artigo, não é esse o preço que está na factura?
- Sim!?...
- Então qual é o problema?
- O problema é exactamente esse… Fui confirmar o preço do livro e verifiquei que existe um engano, da vossa parte, a nosso favor. O preço correcto do livro é de 13 euros.
- Ah!... Como é que sabe o preço deste artigo?
Obviamente estamos a falar com um(a) funcionário(a) de telemarketing que para além de não estar familiarizado(a) com a linguagem dos seus clientes, nunca ouviu falar na Internet.
- Fui ver na Internet.
- Talvez seja melhor eu verificar?
- Se calhar é melhor.
Até hoje a factura não foi corrigida, fazendo com que a honestidade da minha colega não tenha servido para nada. Felizmente desta vez quem ganhou fomos nós.
Nota: Não divulgo o nome do(a) funcionário(a), porque não me parece ser o(a) principal culpado(a), nem o nome da empresa por razões óbvias.
Sexta-feira, Outubro 9
A sabedoria

Dirigismo cultural

– Mais ou menos, mas é bastante mais à frente.
Imediatamente e com um ar reprovador, disse-lhe:
- Com tanta coisa boa cá em casa para leres…
Sem me deixar acabar, respondeu:
- Não fazes ideia do que é isto, pois não, pai?
A resposta fez-me pensar se eu não estaria a ser ignorante na forma de dirigir as leituras do meu filho. Lembrei-me desta história:
Entra uma senhora que vem com uma missão específica.
- A minha filha está fora do país e pediu-me que lhe levasse esta lista de livros. Diz ela que fazem parte de uma colecção de clássicos gregos.
- Com certeza, minha senhora, só um momento... Aqui tem: Ilíada e a Odisseia, de Homero, a Apologia de Sócrates, de Platão, e a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Todos os títulos que a sua filha pediu.
Após uns minutos de espera:
- Sabe, estive a dar-lhes uma vista de olhos e verifiquei que estes livros são todos mais velhos do que Cristo. Estou a pensar em fazer-lhe uma surpresa, coitadinha... Olhe, em vez destes vou levar-lhe dos de agora, que são tão bonitos.
Quem ama, odeia

Quinta-feira, Outubro 8
O Pantagruel já era
Jaime Bulhosa
E o vencedor é...
Obras traduzidas:
O Homem é um Grande Faisão, Cotovia
A Terra das Ameixas Verdes, Difel
2008 – Le clézio
2007 – Doris Lessing
2006 – Orhan Pamuk
2005 – Harold Pinter
2004 – Elfriede Jelinek
2003 – J. M. Coetzee
2002 – Imre Kertész
2001 – V. S. Naipaul
2000 – Gao Xingjian
1999 – Günter Grass
1998 – José Saramago
1997 – Dario Fo
1996 – Wislawa Szymborska
1995 – Seamus Heaney
1994 – Kenzaburo Oe
1993 – Toni Morrison
1992 – Derek Walcott
1991 – Nadine Gordimer
1990 – Octavio Paz
1989 – Camilo José Cela
1988 – Naguib Mahfouz
1987 – Joseph Brodsky
1986 – Wole Soyinka
1985 – Claude Simon
1984 – Jaroslav Seifert
1983 – William Golding
1982 – Gabriel García Márquez
1981 – Elias Canetti
1980 – Czeslaw Milosz
1979 – Odysseus Elytis
1978 – Isaac Bashevis Singer
1977 – Vicente Aleixandre
1976 – Saul Bellow
1975 – Eugenio Montale
1974 – Eyvind Johnson, Harry Martinson
1973 – Patrick White
1972 – Heinrich Böll
1971 – Pablo Neruda
1970 – Alexandr Solzhenitsyn
1969 – Samuel Beckett
1968 – Yasunari Kawabata
1967 – Miguel Angel Asturias
1966 – Shmuel Agnon, Nelly Sachs
1965 – Mikhail Sholokhov
1964 – Jean-Paul Sartre
1963 – Giorgos Seferis
1962 – John Steinbeck
1961 – Ivo Andric
1960 – Saint-John Perse
1959 – Salvatore Quasimodo
1958 – Boris Pasternak
1957 – Albert Camus
1956 – Juan Ramón Jiménez
1955 – Halldór Laxness
1954 – Ernest Hemingway
1953 – Winston Churchill
1952 – François Mauriac
1951 – Pär Lagerkvist
1950 – Bertrand Russell
1949 – William Faulkner
1948 – T.S. Eliot
1947 – André Gide
1946 – Hermann Hesse
1945 – Gabriela Mistral
1944 – Johannes V. Jensen
1939 – Frans Eemil Sillanpää
1938 – Pearl Buck
1937 – Roger Martin du Gard
1936 – Eugene O’Neill
1934 – Luigi Pirandello
1933 – Ivan Bunin
1932 – John Galsworthy
1931 – Erik Axel Karlfeldt
1930 – Sinclair Lewis
1929 – Thomas Mann
1928 – Sigrid Undset
1927 – Henri Bergson
1926 – Grazia Deledda
1925 – George Bernard Shaw
1924 – Wladyslaw Reymont
1923 – William Butler Yeats
1922 – Jacinto Benavente
1921 – Anatole France
1920 – Knut Hamsun
1919 – Carl Spitteler
1917 – Karl Gjellerup, Henrik Pontoppidan
1916 – Verner von Heidenstam
1915 – Romain Rolland
1913 – Rabindranath Tagore
1912 – Gerhart Hauptmann
1911 – Maurice Maeterlinck
1910 – Paul Heyse
1909 – Selma Lagerlöf
1908 – Rudolf Eucken
1907 – Rudyard Kipling
1906 – Giosuè Carducci
1905 – Henryk Sienkiewicz
1904 – Frédéric Mistral, José Echegaray
1903 – Bjørnstjerne Bjørnson
1902 – Theodor Mommsen
1901 – Sully Prudhomme
Quarta-feira, Outubro 7
Morriñas

«Para o meu filho Jaime Manuel, na esperança de que um dia leias a história de uma das guerras mais sangrentas, sem sentido e perpetradas entre irmãos: a Guerra Civil de Espanha. Para ti esta guerra é longínqua e faz parte do passado, mas para mim ela foi determinante no rumo da minha vida. Conto-te um pequeno episódio que me liga a ela, muitas outras histórias na família haveria para contar. Como sabes, fui criado sozinho pela minha avó materna, entre os anos de 1923 e 1936, numa aldeia que dá pelo nome de Pousa. Enquanto criança, gosto de dizer: fui pastor de vacas nas montanhas onde havia lobos e cavalos selvagens, lá onde nasce a cordilheira Cantábrica, numa província de Espanha chamada Galiza. A minha terra era uma terra muito pobre e mais ficou depois da guerra civil. Muito por culpa de um homem que se esqueceu da sua terra. - Já deves ter ouvido falar, chamado Francisco Franco. - Sou de um lugar de onde os homens partem e as mulheres sentem morriñas*.
Em 1936, com o início da guerra civil, contrariado e a mando dos meus pais, imigrados em Portugal, com apenas treze anos de idade, fugi da guerra e viajei sozinho para Lisboa. Viagem que nunca mais esqueci e que naquele tempo levava uma eternidade a fazer-se. Cheguei a esta cidade de Lisboa, que passou a ser a minha cidade, quando se deu um dos momentos mais marcantes que alguém pode viver. Conhecer seu pai e sua mãe em carne e osso. Não penses que os meus pais não queriam saber de mim, como eu também cheguei a pensar. Naquele tempo era assim, e a muitos outros como eu, devido à extrema pobreza, aconteceu-lhes o mesmo. Só depois de dois longos anos consegui voltar à minha terra, apesar dos avisos dos meus pais para não o fazer, pois estávamos em plena guerra civil e seria perigoso. Mas eu não aguentava de saudades da minha avó e, sem ouvir ninguém, parti. Acto que me valeu um dos maiores sustos da minha vida. Com apenas quinze anos de idade, fui compulsivamente alistado nas fileiras nacionalistas do Generalíssimo Franco. Felizmente para mim e para ti, consegui fugir antes de ser integrado, numa madrugada nos finais de Agosto de 1938, com a ajuda de alguns portugueses, amigos de meu pai, que se dedicavam ao contrabando. Passei a fronteira de noite, pelo Rio Minho, num pequeno bote, perto de uma terra chamada Troporiz. Depois de alguns quilómetros a pé, montámos a cavalo e dirigimo-nos para Valença do Minho. De lá apanhei o comboio e só parei quando cheguei são e salvo a Lisboa. Não voltei a viver na minha terra, como é sonho de tantos imigrantes.
Do teu pai com todo o carinho,
Gonzalo Bulhosa»
De pastor de uma aldeia galega a editor em Lisboa, o meu pai, nacionalista galego, morreu num estúpido acidente em 1990, com apenas sessenta e sete anos de idade. Encontra-se sepultado, como era de sua vontade, na sua terra, a Galiza.
*Morriñas: Palavra galega que significa «saudades» e que, ao contrário do que é hábito dizer-se, não existe apenas na língua portuguesa.
Terça-feira, Outubro 6
Ricardo Araújo Pereira fala da sua colecção de literatura de humor
Aqui temos o vídeo de apresentação da nova colecção de literatura de humor dirigida por RAP para a tinta-da-china.
Sexta-feira, Outubro 2
Já chegaram as obras de arte, perdão literárias

Ricardo Araújo Pereira, «Prefácio»
Jacques o Fatalista
Eduardo Prado Coelho, «Prefácio»
Aprende-se mais com 1 destes que 10 dos outros

- Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski
- Pastoral Americana, de Philip Roth
- A Corja, de Camilo Castelo Branco
- O Estrangeiro, Albert Camus
- 2666, de Roberto Bolaño
- A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares
- A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis
- Zadig ou do Destino, Voltaire
- O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar, Yukio Mishima
Nota: Para além de todas as outras vantagens evidentes, a leitura destes 10 livros em vez de 100 dos outros representa uma poupança na ordem dos 1350 euros e evita muitos meses de tempo perdido.
Débora Figueiredo, Carlos Loureiro, Jaime Bulhosa
A Sombra do Que Fomos

Quinta-feira, Outubro 1
Os Dias de Saturno
PAULO MOREIRAS nasceu em 1969 em Lourenço Marques, Moçambique. Veio para Portugal em 1974. Viveu em Finzes (Cinfães), Laranjeiro (Almada) e vive actualmente em Meirinhas (Pombal). Desejou fazer cinema de animação e enamorou-se pela banda desenhada. Após algumas experiências com fanzines, começou a publicar poesia em edições artesanais. Apaixonou-se pela literatura picaresca e publicou o seu primeiro romance A Demanda de D. Fuas Bragatela (2002), seguindo-se um livro de poesia Do Obscuro Ofício (2004) e o Elogio da Ginja (2006). Entre outras coisas, escreveu também o BI da Cereja e da Ginja (2007), o BI do Palito (2007) e o BI do Tremoço (2008).
Edição: QuidNovi
Autor: Paulo Moreiras
N.º Pág. 208
Isbn: 9789896281502
Pvp: 14.95€
Quarta-feira, Setembro 30
O sentido de todas as coisas

Esta ideia só tem um problema: rapidamente vamos constatar que, para entendermos na totalidade alguns dos livros que estes senhores escreveram, vamos ter de ler coisas que se escreveram sobre eles e, depois disso, relê-los. Meu Deus, mas isso leva uma vida inteira!, exclamamos nós. Ninguém disse que era fácil a demanda do sentido de todas as coisas. Como disse Calvino: «Não se lêem os clássicos por dever ou por respeito, mas só por amor. Salvo na escola.» Acrescento que não devemos tentar lê-los a todos, porque como, disse um dia um filósofo, «toda a experiência humana é um imenso livro do qual apenas temos tempo de ler alguns capítulos».
Perante isto, pensamos nós, bom mesmo, para nos facilitar a vida, era alguém ter sido capaz de escrever um livro possível de ler e onde estivesse escrito o sentido de todas a coisas. Houve até em tempos alguém que o fez - não, não é a Bíblia. Esta história está descrita num texto de Voltaire chamado Micromegas (vale a pena ler, até porque a dimensão da obra não é grande e, no entanto, o seu conteúdo é imenso). Este livro relata-nos a história de «um jovem de espírito de oito léguas de altura: entenda-se, por oito léguas, vinte mil passos geométricos de cinco pés cada um, que vivia num desses planetas que giram em volta da estrela de Sírio» e que, por mero acaso, veio parar ao minúsculo planeta Terra. Depois de algumas reflexões e muitas peripécias, que poderão apreciar quando lerem o livro, o jovem de espírito e de sabedoria gigante propôs-se escrever um livro em letra muito miúda, de maneira que os seres microscópicos chamados homens pudessem lê-lo, e onde estaria contido o sentido de todas as coisas. Este texto seria escrito para oferecer àqueles homens da Terra que achavam que sabiam o segredo de tudo e que tudo era feito unicamente para o homem. Feito isto, o livro O Sentido de Todas as Coisas foi levado como um tesouro para ser aberto apenas pelo secretário da Academia das Ciências de Paris. Qual não foi a surpresa quando este o abriu e viu apenas um livro em branco. «Ah! Bem que eu desconfiava…», disse ele.
Indignação

Terça-feira, Setembro 29
Bestsellers religiosos
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Bem Hur (1880), Lew Wallace
Quo Vadis (1896), Henryk Sienkiewicz
In His Steps (1897), Charles M. Sheldon
The Big Fisherman (1942), Lloyd C. Douglas
The Robe (1943), Lloyd C. Douglas
Kingdom Come (2007), Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins
Os Meus Livros

Na perspectiva do livreiro
Felizmente sou pai de três rapazes e muito provavelmente este livro não me aparecerá em casa. Mesmo que aparecesse, não seria morte de homem...A Professora de Piano, de Janice Y.K. Lee, que eu não faço ideia de quem seja (pode até ser um pseudónimo de um escritor ou escritora famosa que necessita como os outros de vender para viver), é a última novidade da chancela Livros D’Hoje. Não vou tecer críticas à obra em causa, porque não a consigo ler, uma vez que o livro se encontra selado e, como se costuma dizer, «gostos não se discutem». Acontece que este livro vem envolto num plástico transparente que guarda uma preciosa oferta, uma flor para o cabelo (com ganchinho e tudo), como anuncia bem explícito um autocolante cor-de-rosa colado no dito plástico. Sob a perspectiva de livreiro, este tipo de produto de marketing (produto que se vende por todos os motivos e mais alguns excepto pela sua verdadeira finalidade) é óptimo, a não ser pelo facto de não o podermos aconselhar aos nossos clientes, uma vez que não o podemos folhear. Também não dá muito jeito para o expor nas mesas, porque a bem-dita flor não permite o seu empilhamento. Pouco mais posso dizer sobre este romance, salvo aquilo que o texto da contracapa permite deduzir: «Will Truesdale, um inglês recém-chegado a Hong Kong, mergulha numa relação apaixonada com Trudy Liang, uma bela socialite euro-asiática [tal e qual como a rapariga da capa].» Para quem tem filhas adolescentes: já sabe como pode conseguir uma flor de plástico para o cabelo por apenas 13.99 €.
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Segunda-feira, Setembro 28
O Poder da Música

Sexta-feira, Setembro 25
O mais longo poema

Capítulos Soltos
Abriu uma nova livraria independente a Capítulos Soltos. Se viver em Braga ou passar por lá não esqueça de lhes fazer uma visita. Podem saber mais e ver fotografias da loja aqui.Boa sorte.
Quinta-feira, Setembro 24
Borboletras

Esvoaçaram um bocadinho em frente à montra e lá resolveram entrar. Nós gostámos de os receber e agora passeiam escada acima, escada abaixo entre as estantes do infantil e a montra. O Aldo e a menina andam atrás das catatuas do Professor Baltazar, o Pinguim e o ursinho quase que adormeceram a contar peixes coloridos do "Viva O peixinho!" e a Handa foi com o bebé apanhar mais frutas para encher o cesto.
Entretanto e como as "borboletras" não são de grandes segredos, já nos contaram que vêm mais a caminho da Pó dos livros. Cá as esperamos.
No domingo vou votar, só não sei em que círculo
A Divina Comédia («Comédia» não porque tenha qualquer tipo de graça, mas porque termina bem, no Paraíso, e naquela época o termo usava-se em oposição à Tragédia) de Dante Alighieri é constituída por três partes: «O Inferno», «O Purgatório» e «O Paraíso». Deixemos as últimas duas partes e centremo-nos na primeira: O Inferno de Dante é constituído por Nove Círculos, onde se encontram Três Vales, Dez Fossos e Quatro Esferas. Essa organização foi baseada na teoria medieval de que o universo é formado por círculos concêntricos. Dante descreve-nos o Inferno como um cone invertido, localizado no interior da Terra. Os seus nove círculos estão dispostos uns sobre os outros de acordo com uma hierarquia de pecados, onde no início se encontram os pecadores menos graves e no fim, ou cada vez mais nas profundezas da terra, os pecadores mais graves. À medida que o poeta Virgílio acompanha Dante na descida pelos infernos, desde o primeiro círculo, O Limbo (círculo onde se encontram aqueles que nasceram antes de Cristo e os que não foram baptizados e que não são propriamente pecadores, mas também não podem ir para o Céu, pois não tiveram fé em Cristo), até ao nono e último círculo, onde se encontra Lúcifer; nós, leitores, vamos tomando consciência da diversidade e gravidade dos pecados e pecadores possíveis de encontrar.O que é que isto tem que ver com o facto de eu ir votar no próximo domingo: nada, até porque não acredito no inferno de Dante. Contudo, não pude deixar de fazer algumas associações entre as almas condenadas de Dante e os nossos políticos do passado e do presente. Pondo de parte qualquer hipótese de eles poderem concorrer pelo Purgatório e muito menos pelo Paraíso, concluo que no domingo vou votar para um círculo do Inferno. Qual? Isso eu não sei.
O Relatório de Brodeck

Quarta-feira, Setembro 23
Faz o que eu te digo, não faças o que eu faço.

1– Que as tuas despesas não sejam superiores a 15% das receitas.
2- Não tentes orientar a leitura dos teus clientes, deixa andar.
3- Quem compra um livro, compra dois.
4– Os bons livros são aqueles que se vendem.
5– Os livros devem apenas ser folheados e não lidos. Todo o conhecimento estorva a missão essencial da vida que é ganhar dinheiro.
6- Nunca contes o enredo de um livro a um cliente ou perdes uma venda.
7- Quando quiseres afastar alguém empresta-lhe dinheiro ou aconselha-lhe um bom livro
8- Não fies aos escritores e aos outros também não.
9– Um livro fica sempre bem em qualquer móvel.
10- Aos ladrões e aos santos todos os temas lhes interessam.
Héctor Yánover em Memorias de un Librero
Em tempo de eleições

- Qual é o título que deseja?
- Pode ser um qualquer, é só para perceber porque é que dizem que este país é Kafkiano.
Os Gropes
Desde a sua fundação no século XII por Awgard, o Pálido, um viking não excessivamente viril, o clã dos Gropes viveu governado, com proveito e mão de ferro, pelas mulheres. E eis que no início do terceiro milénio tudo muda, numa história sangrenta que envolve dinamite numa velha mina, matadouros faça-você-mesmo, vendedores dúbios de carros semi-novos, uma viagem de Londres a Barcelona via Riga, na Letónia, uma mãe particularmente extremosa, touros, porcos e até mesmo um Doppelganger… Terça-feira, Setembro 22
Como é que passaste dos quarenta sem ter lido?...
Sou capaz de nomear, sem qualquer tipo de ajuda, centenas de nomes de livros importantes do século vinte. Do século dezanove, provavelmente, algumas dezenas. Do século dezoito, a coisa começa a ficar mais difícil e, assim de repente, lembro-me do Cândido, de Voltaire, de Jacques o Fatalista, de Diderot, A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, e de mais uns tantos, se me esforçar um pouco. A partir daqui, começo a abrir buracos temporais e lembro-me da Fedra de Racine, do Paraíso Perdido, de Milton, Dom Quixote, de Cervantes, Os Lusíadas, de Camões e Hamlet, de Shakespeare. Depois começo a saltar séculos: A Divina Comédia, de Dante, Confissões, de Santo Agostinho, a Eneida, de Virgílio, a Odisseia e a Ilíada, atribuídas a Homero. Dos milhões de livros que se escreveram desde a antiguidade clássica, apenas alguns ficaram na memória da história. O tempo é um filtro inexorável no que toca a seleccionar as obras de referência. Se pudesse viajar na máquina do tempo e saltar de repente para o século vinte e três, gostaria de poder perguntar a um homem comum títulos de livros importantes do século vinte. Aposto que ele não enumeraria mais do que dois ou três. Desafio a que me digam quais os livros importantes do século vinte, aqueles que ficarão na memória das sociedades futuras. Com um bocado de sorte até já os li e não necessitarei mais de ouvir: «Como é que passaste dos quarenta sem ter lido?…»Segunda-feira, Setembro 21
Jovens Corações
Sexta-feira, Setembro 18
Como não começar um romance
«Ele cheirava a carne de porco. A carne de porco podre, de facto, muito.»
«A sua flatulência levantava-o como um garanhão orgulhoso.»
«Desde que me conheço como gente que tenho hemorróidas.»
«Embora flanqueada por dois soldados espadaúdos e morenos, Paula desviou o seu olhar para o saxofonista gordinho.»
«Robert era novo nestas coisas da prisão, e sentiu-se assustado, confuso. Mas no momento em que ele pôs os olhos em 472825994, tornou-se um prisioneiro do amor.»
«Nicole deixou cair dos seus ombros a blusa de seda que envolveu a perna esquerda de James, que, habilmente, cortou um pedaço de queijo.»
«O cabelo de Scarlet era vermelho como as minhas persistentes feridas gangrenadas.»
«As ondas pesadas no vasto oceano de tinta preta enviaram um borrifo salgado sobre a proa do navio de três mastros, deixando gotas de água sobre a pele de alabastro, exposta acima do corpete da mulher alta. Reven ficou chorando no convés as suas lágrimas salgadas, misturando-as com a tempestade do mar.»
«Sim, ela era uma mulher que tinha sido homem, mas ela ainda sabia como piscar as suas pestanas.»
«Ele agarrou o meu sutiã como um Concord que levanta voo, mas eu não estava preparada para o amor.»
Os Grandes Livros
A Odisseia, a Divina Comédia, os Lusíadas - a grande literatura pode ser lida por todos nós, com uma pequena ajuda. Numa viagem fascinante ao longo de 2500 anos, Anthony O’Hear mostra-nos o caminho, na companhia de livros tão poderosos, emocionantes e cheios de erotismo como qualquer best-seller moderno.Começamos por Homero, o pai da literatura ocidental. Depois, a tragédia grega, Platão, a Eneida de Virgílio e as Metamorfoses de Ovídio, fonte inesgotável de inspiração para a literatura e as artes plásticas europeias.Através de Santo Agostinho passamos à Divina Comédia de Dante, um desvio ao mesmo tempo tenebroso e sublime pelo Inferno e pelo Purgatório, terminando na sua arrebatada visão do Paraíso. Chaucer, Camões, Shakespeare, Cervantes, Milton, Pascal, Racine e Goethe completam a tábua das personagens desta história fabulosa. Em qualquer dos casos, O’Hear traça um esboço paciente dos seus temas, aborda passagens cruciais e explica a importância imorredoura destas obras.Mais do que uma grande obra de referência, esta é também uma história narrativa contada com um profundo amor pela literatura - e uma crença inabalável na sua capacidade de inspirar e enriquecer os nossos mundos.Edição: Aletheia
Autor: Anthony O’Hear
Tradução: Maria José Figueiredo
N.º Pág. 517
Isbn:9789896221737
Pvp: 19.00 €
Quinta-feira, Setembro 17
Ufa!

- Qual é a parvoíce que você me vai aconselhar para ler desta vez?
- (Atrapalhado) Desculpe, qual foi mesmo o livro que eu lhe aconselhei?
- O Sexus do Henry Miller.
- E não gostou?
- Eu não disse isso.
Página web Caderno Afegão
Fotografias, sinopse da obra e biografia da autora, disponíveis no website promovido pela editora. Caderno Afegão é o mais recente título da colecção de viagens da Tinta-da-China, coordenada por Carlos Vaz MarquesA melhor frase sobre sexo na literatura
(which was rather late for me)
Philip Larkin in Annus Mirabilis
Quarta-feira, Setembro 16
Um filho adolescente
- Passo o dia a ler.
- Boa! Não sabia que tinhas ganho o gosto pela leitura de livros?
- Não pai! Passo o dia a ler menssagens de texto (sms).
- Ah!
Nick Cave e David Byrne
Nick Cave – A Morte de Bunny Munro«Depois do suicídio da mulher, Bunny Munro, caixeiro-viajante, parte com o filho numa viagem pela costa sul de Inglaterra e cedo descobre que tem os dias contados. Mais do que para vender cosméticos, Bunny viaja em busca da sua alma.»
Edição: Alfaguara
Autor: Nick Cave
N.º Pág. 290
Isbn: 9789896720063
Pvp:16.50 €
David Byrne – Bicycle Diaries«Desde do início da década de 80, David Byrne elegeu a bicicleta como o seu principal meio de transporte na cidade de Nova Iorque. Duas décadas depois descobre a bicicleta articulada e começa a levá-la com ele em tournée. Neste livro David Byrne descreve-nos, através da sua bicicleta, as várias cidades do mundo por onde passou. Com uma mistura muito pessoal de humor e curiosidade, David Byrne regista os seus pensamentos sobre a globalização, world Music, planeamento urbano, moda, política, arquitectura e desenvolvimento cultural.»
Edição: faber and faber
Autor: David Byrne
N.º Pág. 297
Isbn:9780571241026
Pvp: 15.00 €
Terça-feira, Setembro 15
Caderno Afegão


Edição: tinta-da-china
Sábado, Setembro 12
Especialistas
- Queria Viagens na Minha Terra, de Eça de Queirós.
- Queria os Contos Completos. – De quem? - Há mais do que um com o mesmo título?
- Queria a Antologia. - Antologia do quê? - Há muitas é?...
- Queria a Bíblia Anarquista.
- Queria a Bíblia Não Ficcionada.
- Queria o livro escrito por Jesus Cristo. - Será a Bíblia? - não, é qualquer coisa como: Este Jesus Cristo Que Vos Fala, de Alexandra Solnado.
- Queria um livro que me explique porque é que o meu filho me odeia.
- Queria um livro que me explique porque que é que o meu marido se apaixonou pela secretária.
- Queria o livro Como Ganhar o Euromilhões.
- Queria A Mente do Poder. - Não será O Poder da Mente? - Não, esse eu já tenho.
- Queria Os Pássaros Fritos, - não será Os Pássaros Feridos?
- Queria o Jerusalém, de Mia Couto. - Não será o Jesusalém?
- Queria o livro Não Sei – Não sabe o quê? - Não Sei! - Isso, já sei que não sabe! - Não sei é o título do livro!?... - Eu sei lá!?... - Isso mesmo!
- Queria O Gato Marado e a Andorinha Sei Lá - Não será O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado?
- Queria um livro sobre imitações. – Como de imitações? – Sim, para aprender a imitar passarinhos… e essas coisas.
- Queria um livro das Origens. – Origens do quê? - Das minhas origens.
Jaime Bulhosa
Sexta-feira, Setembro 11
Porque ler é muito importante
- Pai! Se ler é assim tão importante, porque é que nunca vejo ninguém na televisão a fazê-lo?
Livreiro anónimo pai.
Quinta-feira, Setembro 10
Para verdadeiros cinéfilos.
Existem milhões e milhões de livros escritos e a grande maioria foi escrita apenas nos últimos 150 anos da história da humanidade. É verdade que muitos também se perderam para todo o sempre e alguns não fizeram falta nenhuma. Talvez não exista nenhuma área do conhecimento humano sobre a qual não haja pelo menos um livro escrito. Tanto assim é que há quem se dedique a escrever livros sobre assuntos obscuros e bizarros (podem ver aqui neste post alguns exemplos). Por este facto, por mais que conheça livros, há sempre mais um que me consegue supreender. O último é um livro para verdadeiros cinéfilos:CLUCK!: The True Story of Chickens in The Cinema, de Jon-Stephen Fink, Virgin Books, 1981. Finalmente, para todos os cinéfilos, uma completa filmografia ilustrada de todos os filmes onde as galinhas vivas, mortas ou cozinhadas aparecem (incluindo todos os filmes onde a palavra “galinha”, assada, frita ou guisada, é mencionada).
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Uma ideia optimista
Agora que nos afastámos do nosso caminho as falsas noções de “Deus”, enfrentamos a questão da qual ele nos protegia: Se os seres humanos não são a “espécie escolhida”, seremos pelo menos capazes de transcender a natureza da qual emergimos?
A nossa inclinação mais natural deveria ser a de nos matarmos uns aos outros de uma forma ou de outra. Desde o plâncton até aos paquidermes, o mito da natureza como uma colaboração sustentável e afectuosa é tão absurdo como o mito de um Criador.
A menos que nos revelemos diferentes de todas as outras espécies, continuaremos a competir com os outros habitantes do planeta por uma parcela desproporcionada dos seus recursos – e a competir entre nós pelos despojos desta guerra em curso. É assim a vida.
Acredito que os seres humanos podem ser diferentes das espécies antepassadas e as infindáveis comparações entre o comportamento humano e o comportamento das outras espécies são, em última análise, enganadoras. E espero que o facto de as colónias de esponjas fazerem guerras intermináveis com as colónias de outra cor não signifique que os humanos estejam condenados a fazer o mesmo.
Estou optimista porque acredito que, tendo-se libertado do mito do significado intrínseco, os seres humanos conseguirão alcançar a capacidade de gerar sentido, e que esta capacidade única nos dê a oportunidade de desobedecermos às ordens da biologia.
Douglas Rushkoff, analista de media, guionista de documentários e autor de Get Back in the Box: Innovation fom the Inside Out.
Ideias Optimistas, Coordenação John Brockman uma edição tinta-da-china
O Tambor de Lata
O dia do seu terceiro aniversário é uma data decisiva na vida de Oskar, o pequeno que não queria crescer. Não só é o dia em que toma a decisão de deixar de crescer, mas é também quando recebe o seu primeiro tambor de lata, objecto que se converterá num companheiro inseparável num percurso em que ecoam os compassos da história alemã antes e depois da II Guerra Mundial. A crítica mordaz, a ironia desapiedada, o humor corrosivo e a liberdade criadora com que Günter Grass constrói esta obra-prima tornam O Tambor de Lata num dos livros mais importantes da história da literatura. Quarta-feira, Setembro 9
Os Dabney - Coord. Maria Filomena Mónica

Terça-feira, Setembro 8
Os cinco maiores romances de sempre

Segunda-feira, Setembro 7
A Música da Fome

O bem-estar de Ethel começa a resvalar quando, nas refeições que o seu pai oferece a parentes e conhecidos, se repete cada vez mais o nome de Hitler. Serão os primeiros sinais do que ameaça a família Brun: a ruína, a guerra, mas, sobretudo, a fome. Ela marcará o despertar da jovem Ethel para a dor e o vazio, mas também para o amor, num romance em torno das origens perdidas, durante uma época que culminou com um apocalipse anunciado.
Editor: Dom Quixote
ISBN: 978-972-20-3825-6
Páginas: 192
Dimensões: 15,5 x 23,5 cm
Colecção: Ficção Universal
Sábado, Setembro 5
Quinta-feira, Setembro 3
Pedra de afiar livros
– Mandaram-me vir ter com o senhor.
– Ah! És tu o novato? Ainda bem. Estava mesmo a necessitar de alguém que me fosse buscar uma encomenda de livros de Direito à livraria Petrony.
– Livraria Petrony?
- Sim, uma livraria e editora de livros de Direito que fica ali em baixo, na Rua da Assunção. Vais ter com senhor Augusto Petrony e dizes que vais levantar, da minha parte, uma encomenda de livros.
- Com certeza.
- Rapaz! É verdade, já agora, traz-me uma pedra de afiar livros.
- Uma pedra de afiar livros?
- Sim, homem… Vai lá e despacha-te!
- Com certeza.
Lá fui eu a pé, descendo a Rua Garrett, virei à esquerda pela Rua do Carmo, cortei à direita pelo elevador de Santa Justa, desci as escadarias, cheguei à Rua do Ouro, andei mais cinquenta metros e, junto à esquina da Rua dos Sapateiros, lá estava a Livraria Petrony.
- Por favor, o senhor Petrony?
O senhor Petrony (editor e livreiro emblemático de publicações de Direito, fundador em 1955 da livraria/editora com o mesmo nome) era uma personalidade impressionante. Mas o que mais me marcou na primeira vez que o vi foi o seu aspecto físico. Tanto que até hoje, muitos anos depois de o senhor ter falecido, ainda me recordo do seu tamanho, da sua voz rouca que parecia saída de um instrumento de sopro. Provavelmente, de excesso de tabaco. Era um homem grande, não em altura, mas em volume. Tudo nele era grande, os braços largos, as pernas gordas, os olhos enormes, muito saídos das órbitas oculares, que davam a sensação de que a qualquer momento explodiriam.
- É o próprio. O que deseja?
- Venho levantar uma encomenda de livros que está em nome do senhor Braga.
Poucos minutos depois, entregam-me dois enormes embrulhos de livros, atados com corda de sisal. Cada um devia pesar no mínimo quinze quilos. Só de imaginar que teria de carregar aqueles dois pesadíssimos pacotes de livros pela Rua do Carmo e Garrett acima, doeram-me as mãos.
- Deseja mais alguma coisa?
Envergonhado, acrescentei:
- Queria também uma pedra de afiar livros.
- Embrulhem-me aí uma pedra de afiar. - Gritou para dentro da loja o senhor Petrony.
Vejam o meu azar: para além dos dois pacotes de livros, teria também de carregar um objecto imensamente pesado em forma de paralelepípedo (facto que não dava jeito nenhum, pois temos apenas duas mãos). Imaginem o peso dos livros, mais aquele objecto estranho que se deslocava de um lado para o outro, batendo constantemente contra os meus joelhos, as cordas de sisal que me cortavam literalmente as mãos, ao ponto de ficar com elas em sangue, fizeram com que um trajecto que se faz normalmente em dez minutos, demorasse 45 minutos, tantas vezes fui obrigado a parar por causa das dores. A suar em bica com as mãos e joelhos feitos num oito, lá cheguei.
- Demoraste...
- Sabe, isto é muito pesado.
- Trouxeste a pedra de afiar livros?
- Sim.
- Então deita-a no lixo.
Ouve-se uma gargalhada geral.
A pedra de afiar livros não passava de uma pedra de calçada enorme e fazia parte da praxe de iniciação do livreiro. Assim começou o meu primeiro dia de trabalho.
É tudo ficção
- Mestre, como posso distinguir os temas dos livros e saber onde os arrumar?
- Os livros com textos antigos vão para a filosofia. Os livros com textos curtinhos e, às vezes com rima, vão para a poesia. Os livros com diálogos e didascálias vão para o teatro.
- Didas… quê?
- Didascálias.
- Ah!... E o resto?
- O resto?!… Embora muitas vezes não pareça, é tudo ficção.
Quarta-feira, Setembro 2
Livros abandonados...
1- Harry Potter and the Goblet of Fire, J.K. Rowling
2- Ulysses, James Joyce
3- Vernon God Litle, D.B.C. Pierre
4- Captain Corelli’s Mandolin, Louis de Bernière
5- Cloud Atlas, David Mitchell
6- The Satanic Verses, Salman Rushdie
7- The Alchemist, Paulo Coelho
8- War and Peace, Lev Tolstoy
9- The god of Small Things, Arundhati Roy
10- Crime and Punishment, Fyodor Dostoievsky
Nota: A maior parte destes livros são frequentemente citados como sendo dos melhores e mais lidos de sempre.
Uma História da Guerra
Terça-feira, Setembro 1
Cinco livros para levar para outro planeta

Segunda-feira, Agosto 31
Prateleira de livreiros
O Galo de Sócrates


A primeira é protagonizada por um galo, senhor de um ironia digna do próprio Sócrates, o genuíno, o filósofo. A segunda por uma mosca culta e tragicamente desencantada. Galo e mosca serão sacrificados. Em nome da humana estupidez.
Leopoldo Alas “Clarín” (1852-1901) é um dos melhores escritores espanhóis do seu tempo. E do nosso. Pois de então para cá o que é que mudou, além das moscas?
Tradução: de Horácio Vaz
80 pp. 13x13
ISBN 978-989-95833-2-0
pvp: € 7,50
Sábado, Agosto 29
Paralelo 42 é o primeiro volume da triologia U.S.A., que celebrizou John dos Passos como um dos maiores escritores norte-americanos do século XX ao fazer um esboço grandioso e caleidoscópio de uma nação em vias de se tornar uma superpotência. Tal como o paralelo que lhe dá título, este livro atravessa o coração dos Estados Unidos, ao seguir as vidas de cinco personagens nos anos que antcederam a Primeira Guerra Mundial. Mac, Janey, Eleanor, Ward e Charley são oriundos de diferentes partes do país e de diferentes estratos socio-culturais, e todos eles perseguem a sua versão do sonho americano. As suas histórias e percursos, que ora convergem ora divergem, são entrecortados por técnicas narrativas experimentais - como o recurso a colagens de notícias ou a fragmentos de um fluxo de consciência autobiográfico -, permitindo ao leitor construir, a cada página, um mapa detalhado da psique americana.
Sexta-feira, Agosto 28
Teoria Geral das Lágrimas

- O que acha de uma Teoria Geral das Lágrimas? Sinto-me talhado para trabalhar nisso.
- É uma hipótese – disse-me ele -, mas ser-lhe-á muito difícil encontrar uma bibliografia.
- Que não seja por isso. Toda a história me apoiará com a sua autoridade – respondi-lhe eu, com um tom de impertinência e de triunfo.
Mas como ele, impaciente, me lançava um olhar de desprezo, resolvi de imediato matar em mim o Discípulo.
100 portas de Lisboa

«Pó dos Livros: Os Clientes habituais tratam-no por senhor Carlos, e Carlos Loureiro é uma autoridade no mundo dos livros. Com mais de 20 anos de experiência, é o que um livreiro deve ser: alguém que acompanha, conhece e aconselha. E este é um dos grandes trunfos da livraria Pó dos Livros. Mas há mais: o bom gosto da decoração, a diversidade na oferta, as bonitas edições da Tinta da China, editora ligada aos proprietários, o café e o fundo editorial.»
Nocturnos
kazuo Ishiguro explora nesta obra os temas do amor, da música e da passagem do tempo. Um livro para quem se recusa a perder a esperança e insiste em ver o lado positivo de tudo o que sucede. Lições de vida e a vida em lições de mestria narrativa, de um autor já descrito pelo New York Times como «um génio extraordinário e original».Das piazze italianas às colinas de Malvern, de um apartamento londrino à zona «reservada» de um luxuoso hotel de Hollywood, encontramos nestas páginas uma singular galeria de personagens – de jovens sonhadores a músicos de café e a vedetas em declínio – num momento particular de reflexão e de reavaliação das suas vidas.
Terno, íntimo e cheio de humor, este quinteto de histórias é marcado por um motivo recorrente: o esforço para preservar o sentido do romance na vida. É um livro para quem se recusa a perder a esperança e teima em ver o lado positivo de tudo o que de bom e mau sucede. Lições de vida e a vida em lições de mestria narrativa.
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Autor: Kazuo Ishiguro
Tradução: Rui Pires Cabral
Edição: Gradiva
ISBN: 9789896163228
PVP: 14.00€
Quinta-feira, Agosto 27
Blues

Que punge o azul. E só a si se empolga.
pvp: 16.00€
Publicado por Isabel Nogueira
Quarta-feira, Agosto 26
Pensamento do dia
Livreiro anónimo à beira do suicídio
Terça-feira, Agosto 25
- Sim, estou a pensar viver só disto, quero dizer, da escrita.

Desde há uns anos que frequentava o meio, conhecia e falava com muitos escritores. Alguns consagrados, outros não tanto; contudo, todos já tinham livros editados. Sempre que podia, trocava impressões sobre aquilo que eles escreviam e aproveitava para mostrar o que eu escrevia. Eram sempre simpáticos, demasiado simpáticos, falavam comigo como alguém que pertencesse a uma classe social superior; sempre obsequiosos, condescendentes, com medo de descer ao nível do interlocutor. Agora sim, iriam ouvir falar de mim e eu alcançarei, merecidamente, o mesmo patamar. Estava junto do meu editor. A persistência foi recompensada: o desejo de me tornar num escritor editado seria realizado.
- Não imagina... Cheguei a passar, não poucas vezes, por depressões, conflitos internos que levaram a minha auto-estima a cair para zonas que a psicanálise quase não conseguia recuperar. Pudera, depois de tantos anos de manuscritos recusados... Cheguei a pensar em desistir e achei que nunca iria editar um livro. Evidentemente, ainda sou jovem para escritor e há inclusive quem diga que não se deve escrever um romance antes dos quarenta anos, porque pouco mais será do que citar fragmentos de outros livros. Mas o impulso, a vontade, o prazer da escrita foram mais fortes do que eu. Não podemos desejar, logo à primeira, uma obra-prima. Estas demoram uma vida inteira a serem escritas. Por isso, desta vez, não fiz nada ao acaso. Enviei o manuscrito só para a sua editora, que tem um catálogo de qualidade e onde o meu livro encaixa perfeitamente.
- Fez bem, de facto gostamos muito do seu livro. É um texto muito original, com uma trama intensa e, ao mesmo tempo, uma escrita escorreita, com personagens bem construídas. Enfim, a prosa excelente de um verdadeiro escritor de fundo, com uma qualidade que, nos dias que correm, raramente encontramos. Foi por isso que decidimos publicá-lo.
Desde que recebi a notícia de que o meu livro iria ser publicado não parei de sonhar com o meu nome nos jornais, nas revistas, na televisão, até com a adaptação para o cinema.
- Sabe, há muito tempo que desejo dedicar-me inteiramente à escrita - confessei.
- Como?
- Sim, estou a pensar viver só disto, quero dizer, da escrita. Disse-me que os direitos de autor são dez por cento sobre o preço de capa?
- Exactamente.
- Então, é fácil fazer as contas. Se pegarmos num livro semelhante verificamos que o seu preço ronda os dezasseis euros. Multiplicado por milhares, é muito dinheiro.
- Peço desculpa, mas ao dizer-me uma coisa dessas não me parece que faça ideia de qual a tiragem média de um livro neste país. Estamos a falar, no máximo, de 3000 exemplares.
- O quê?!... É essa a quantidade que está a pensar imprimir do meu livro? Não disse que ele era bom? Pareceu-me mesmo ouvir que o adjectivou de excelente...
- Ouviu bem, mas é exactamente por isso.
- Não entendi…
- É melhor sentar-se, pois não vai gostar do que lhe tenho para dizer. Quando falei em 3000 exemplares, estava a falar de uma tiragem média. A primeira edição do seu livro será de apenas 1000 exemplares. Provavelmente, colocar-se-á pouco mais de metade nas livrarias e devolver-se-á, nos primeiros três meses, trinta por cento da edição.
- Mas esses números são ridículos e você é um idiota chapado! Com esse cenário, para poder viver da escrita teria de escrever dez livros por ano. Não lhe parece?!…
- Isso se conseguisse vender todos no primeiro ano. O que é pouco provável. Vou-lhe dizer uma coisa, a maioria dos grandes escritores só chegou a ver estrelas depois de levar um murro. Ouviu! Pumba.
Segunda-feira, Agosto 24
Venho para comprar tudo

- Vende-se bem?
Dadas as circunstâncias, não lhe respondo imediatamente, mas ele insiste:
- Você estaria disposto, se fosse o caso, a vender tudo?
Desconfio. No entanto, dou brilho aos sapatos, arreganho a dentadura, penteio-me.
- Venho para comprar tudo.
Agora sim, presto atenção. Engraxo-lhe os sapatos, etc. Ele continua:
- Tudo depende, evidentemente, do preço. Mas faço-lhe uma oferta generosa.
- Diga, então.
- Dois milhões.
Mentalmente dou pulos, em silêncio dou gritos de alegria. Comprometi-me a vender tudo. Tiro os livros, entrego-lhos, embrulho também os da montra, a caixa, os lápis, as canetas, o cabide. O senhor insiste.
- Eu disse tudo.
- Tudo? O que é tudo?
- Tudo, tal como eu disse.
- As paredes?
- Sim, creio que nos entendemos bem, você fixou o preço e eu não desisti. Eu disse tudo. As paredes, o tecto, o rés-do-chão, o 1.º piso, as outras paredes, os outros tectos, enfim: tudo.
Encolhi os ombros.
- Bom, digo-lhe, sendo assim vou andando. Disponha. É tudo seu.
- Mas onde pensa que vai? Você também faz parte do «tudo», o dinheiro que eu lhe dei, o chão que pisa, o ar que respira, o mundo que o rodeia. Eu comprei TUDO.
Relato de um sonho de livreiro transformado em pesadelo
Beloved

Sexta-feira, Agosto 21
Sinto-me tão completo...
Quem terá sido o gajo que teve a ideia peregrina de inventar a frase que diz que, para que a tua vida seja completa, terás de cumprir três tarefas: «plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro»? Cheira-me a rigor germânico ou a sabedoria oriental, que é como quem diz: uma chinesice qualquer. Eu sei que quem inventou o descanso foi um grande homem. Agora, inventar adágios sem pensar nas consequências? Isso até eu.Plantar uma árvore, ainda vá que não vá, no meio de tanto caroço cuspido, algum deve ter germinado. Ter um filho, quem quiser assumir um monte de responsabilidades, com um bocadinho de sorte e a colaboração de outra pessoa, a coisa faz-se. Agora, escrever um livro? E se eu não tiver nada para dizer? E se não me apetecer dizer nada? Melhor: e se o que tiver para dizer não interessar nem ao menino Jesus? Sou menos completo do que os outros que já o fizeram? Para além do mais, esta ideia é perigosa e propaga-se mais do que a gripe A, tendo em conta a quantidade de gente que anda por aí a escrever livros. Há uns que até o anunciam antes de o terem escrito, para que, no caso de lhes acontecer alguma coisa (bate na madeira), possam dizer que só não chegaram ao fim por mero azar. A ideia de que cada um de nós tem o direito de ser ouvido é completamente inexequível. Como dizia o filósofo mexicano Gabriel Zaid: «Numa hipotética assembleia universal, não teríamos tempo de vida suficiente sequer para nos cumprimentarmos uns aos outros.» E porque não, em vez de escrever um livro, escrever num blogue? Eh pá! Espera aí… O gajo se calhar até tem razão, falhou foi na terceira hipótese. Sinto-me tão completo...

























